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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Individualidade X Individualismo

Pode-se dizer que o individual está vinculado a subjetividade de cada indivíduo, àquilo que é singular e lhe pertence. A individualidade garante a diversidade e pluralidade em termos de vida. Se assim não fosse teríamos humanos em série. Não que isso não tenha sido esforço de alguns, mas é a individualidade que garante o fracasso do intento. A individualidade se dá a partir da própria percepção daquilo que é diferente e externo, por isso, referente a um mundo interno que de alguns modos se exterioriza. A descoberta do diferente garante identidade própria, evidentemente que sempre pouco distinta daquela parte maior que lhe foi conferida socialmente. 

Já o individualismo se inscreve de forma diferente, como aquele que idolatra a individualidade a ponto de torná-la paradigma único de forma que ignora a diferença, aquilo que pertence ao outro - o outro. Neste processo são avivados outros elementos negativos como o egoísmo ou o narcisismo. O desafio é compreender o entorno deste processo que envolve tanto o mundo interior do indivíduo com o exterior. No interior evidentemente há conflitos emocionais e de valores, no exterior pressões por realidades que exercem força na alimentação das chamas internas.

Há a configuração de uma nova história e um novo mundo a partir deste processo denominado por alguns como "individualização" em que o individualismo assume caráter de liberdade desejada, porém assumido de forma inconsciente de seus resultados. Liberdade que mata o outro e restringe a vida.

Só há espaço para o individualismo por causa do empobrecimento dos aspectos coletivos, ou seja, pela desvalorização da vida compartilhada com o semelhante, seja no ambiente familiar ou na comunidade como um todo. É assim que se planta violência e transtornos sociais dos quais se questiona acerca da sua origem.

A individualidade é algo belo, digno de reconhecimento e valor. Porém o individualismo é algo perigoso, por isso, digno da pugna que garante o bem comum, a vida em comunidade.
 
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Ederson Malheiros Menezes (licenciado em sociologia, especialista em educação e mestre em práticas socioculturais e desenvolvimento social)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Cidadão e Cidadania

Gosto da definição inicial que Manzini dá sobre cidadão, ela diz que é possível "afirmar que cidadão significa ter direitos e deveres, ser súdito e ser soberano". As implicações do enunciado não são tão breves como o próprio enunciado.

A cidadania sintetizada na prática pelas lutas e batalhas em torno dos direitos e deveres dos cidadãos é uma temática que agrega ou relaciona-se com diversas outras. Assim percebemos a partir dela a valorização dos direitos a partir da Constituição Brasileira, sua relação com o trabalho, com as leis, com as classes sociais, com os sistemas econômicos, com a educação, com as subjetividades, com a história, com a religião, com o Estado; enfim, com a vida.

Como não poderia deixar de ser, exatamente como tantas outras realidades que envolvem a vida humana a cidadania se apresenta de forma plural. E neste sentido se faz necessário o reconhecimento do seu verdadeiro caráter, pois algumas propostas de cidadania são mascaradas e muito mal intencionadas.

Por outro lado é fácil entregar-se ao apelo benéfico dos direitos, mas difícil fazer parte da conquista deles ou dos deveres que correspondem ao outro lado da moeda.

Vive-se o desafio da constituição do cidadão num tempo globalizado onde predomina a sociedade de consumo. Em que as palavras ética, responsabilidade e altruísmo estão fora de moda.

Mas para não permitir o domínio do pessimismo, não deve-se esquecer que cada dia e cada época reserva sempre oportunidade para se fazer algo melhor e diferente.

O que não deve jamais ser permitido é o desperdício ou até mesmo o roubo do espaço que por direito ocupa cada indivíduo em sociedade, o espaço público onde se preserva a liberdade e a democracia. Pois são estes espaços que garantem a existência das oportunidades e das mudanças, consequentemente dos sonhos não utópicos, porém conquistados nas ações de bem comum.

É assim que os direitos e deveres, encarnados pelo súdito que ao mesmo tempo é soberano constituem a revolucionária postura cidadã.

Ederson Malheiros Menezes

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Estado, política e esfera pública

O Estado é compreendido como o centro de espaço público, uma forma de expressão estruturada do poder coletivo que faz uso da coação (convencer) e coerção (obrigar).Já a Política diz respeito a todo o processo pelo qual os indivíduos organizam suas ações em relação às ações dos outros, sendo que a essência da Política é entender a vida social para compreender o espaço de cada um.A esfera pública, espaço de circulação das opiniões públicas, de discussões livres, debates públicos nos quais é possível discutir temas de interesse geral e formar opiniões. Esta é a arena onde acontece a aglutinação da vontade coletiva e lugar central de fundamentação, justificação, legitimação, validação e efetivação das decisões políticas. É na esfera pública que brota a cidadania e é da força da cidadania que nasce a gestão social. (Adaptado de SILVA, E. W. "Esfera pública, cidadania e gestão social").

Estado (do latim status,us: modo de estar, situação, condição), segundo o Dicionário Houaiss é datada do século XIII e designa "conjunto das instituições (governo, forças armadas, funcionalismo público etc.) que controlam e administram uma nação"; "país soberano, com estrutura própria e politicamente organizado".[1]. Segundo o jurista italiano Norberto Bobbio, a primeira vez que a palavra foi utilizada, com o seu sentido contemporâneo, foi no livro Arte da Guerra, do Imperador e General que fundou a dinastia dos Sun Tzu e posteriormente no livro denominado O Príncipe, do Diplomata e Militar Nicolau Maquiavel. É organizada política, social e juridicamente, ocupando um território definido, normalmente onde a lei máxima é uma constituição escrita, e dirigida por um governo que possui soberania reconhecida tanto interna como externamente. Um Estado soberano é sintetizado pela máxima "Um governo, um povo, um território". O Estado é responsável pela organização e pelo controle social, pois detém, segundo Max Weber, o monopólio da violência legítima (coerção, especialmente a legal). Normalmente, grafa-se o vocábulo com letra maiúscula, a fim de diferenciá-lo de seus homônimos. Há, entretanto, uma corrente de filólogos que defende sua escrita com minúscula, como em cidadania ou civil. Não com o objetivo de ferir a definição tradicional de Estado, mas a fim de equiparar a grafia a outros termos não menos importantes. O reconhecimento da independência de um Estado em relação aos outros, permitindo ao primeiro firmar acordos internacionais, é uma condição fundamental para estabelecimento da soberania. O Estado pode também ser definido em termos de condições internas, especificamente (conforme descreveu Max Weber, entre outros) no que diz respeito à instituição do monopólio do uso da violência. O conceito parece ter origem nas antigas cidades-estados que se desenvolveram na antiguidade, em várias regiões do mundo, como a Suméria, a América Central e no Extremo Oriente. Em muitos casos, estas cidades-estados foram a certa altura da história colocadas sob a tutela do governo de um reino ou império, seja por interesses económicos mútuos, seja por dominação pela força. O estado como unidade política básica no mundo tem, em parte, vindo a evoluir no sentido de um supranacionalismo, na forma de organizações regionais, como é o caso da União Europeia. Os agrupamentos sucessivos e cada vez maiores de seres humanos procedem de tal forma a chegarem à ideia de Estado, cujas bases foram determinadas na história mundial com a Ordem de Wetsfalia (Paz de Vestfália), em 1648. A instituição estatal, que possui uma base de prescrições jurídicas e sociais a serem seguidas, evidencia-se como "casa forte" das leis que devem regimentar e regulamentar a vida em sociedade. Desse modo, o Estado representa a forma máxima de organização humana, somente transcendendo a ele a concepção de Comunidade Internacional.  (WIKIPÉDIA)

Política denomina arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados; aplicação desta ciência aos assuntos internos da nação (política interna) ou aos assuntos externos (política externa).1 Nos regimes democráticos, a ciência política é a atividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos com seu voto ou com sua militância. A palavra tem origem nos tempos em que os gregos estavam organizados em cidades-estado chamadas "polis", nome do qual se derivaram palavras como "politiké" (política em geral) e "politikós" (dos cidadãos, pertencente aos cidadãos), que estenderam-se ao latim "politicus" e chegaram às línguas europeias modernas através do francês "politique" que, em 1265 já era definida nesse idioma como "ciência do governo dos Estados".2 O termo política é derivado do grego antigo πολιτεία (politeía), que indicava todos os procedimentos relativos à pólis, ou cidade-Estado. Por extensão, poderia significar tanto cidade-Estado quanto sociedade, comunidade, coletividade e outras definições referentes à vida urbana. O livro de Platão traduzido como "A República" é, no original, intitulado "Πολιτεία" (Politeía)(WIKIPÉDIA).

Esfera pública é a dimensão na qual os assuntos públicos são discutidos pelos atores públicos e privados, tal processo culmina na formação da opinião pública que, por sua vez, age como uma força oriunda da sociedade civil em direção aos governos no sentido de pressioná-los de acordo com seus anseios. Sob a ótica de Habermas, em sociedades complexas a esfera pública forma uma estrutura intermediária que faz a mediação entre o sistema político, de um lado, e os setores privados do mundo da vida e sistemas de ação especializados em termos de funções de outro lado. (WIKIPÉDIA)

quinta-feira, 21 de março de 2013

Questão de método

Questões de Método

 "Quando é preciso despedir-se: Daquilo que sabes conhecer e medir é preciso que te despeças, pelo menos por um tempo. Somente depois de teres deixado a cidade verás a que altura suas torres se elevam acima das casas." – (F. Nietzsche).


A questão do método é um dos debates mais polêmicos da teoria social. Como exemplo, tem-se o esforço dos clássicos, que se não conseguiram encerrar a questão, ao menos deixaram indagações e pontos de partida para as futuras gerações. Por isso, para tratar as questões de método nas Ciências Sociais, é imprescindível partir daquele que propôs as regras do método sociológico para além das Ciências Naturais, ainda no século XIX. Segundo Durkheim, “em questões de método (...) nada se pode fazer que não seja provisório, pois os métodos mudam à medida que a ciência avança” (2006,16). A consciência dessa dinâmica é o que nos induz a analisar, não as regras do método, mas a gênese que leva às questões de método.  
                Durkheim, em linhas gerais, exorta os sociólogos a não fazer pré-julgamentos sobre os fatos sociais, antes de estudá-los minuciosamente, pois facilmente corre-se o risco de nublar seu discernimento, devido ao convívio tão fluido com os fatos sociais. Ao contrário, ele afirma: o sociólogo deve sentir-se, ante o seu objeto, como se diante do desconhecido, pronto para surpreender-se e desconcertar-se.
                Na busca de novas formas metodológicas, a partir da prática epistemológica, Karl Marx – para quem a apreensão da realidade social deve ocorrer do concreto para o abstrato – propôs uma análise das determinações históricas, revelando sua preocupação com as motivações, que levaram a construção da sociedade por um determinado caminho. O agente social passa a ser um componente na constituição desta realidade, numa relação dialética entre sujeito e objeto. Em função dessa análise, para Marx “o concreto só é concreto porque é a síntese de muitas determinações” ( 1996, p. 39).
                Max Weber, por sua vez, representa uma das mais importantes expressões teóricas da sociologia, nos primeiros anos do séc. XX. Nesse período, as bases das Ciências Sociais ainda estavam em construção: tanto seus fundamentos, quanto seus instrumentos metodológicos. A grande preocupação de Weber é trazer para o plano técnico o pressuposto da validade e da objetividade, que passarão a ser considerados como propriedades metodológicas.
                A validade do conhecimento científico dependerá, então, da confiabilidade dos métodos empregados, considerando a estrutura lógica dos mesmos, capaz de garantir a transmissão da verdade dos enunciados observáveis às hipóteses e vice-versa. Desta forma é possível preencher a condição fundamental da objetividade científica exigida por Weber: a verificação empírica dos resultados obtidos.
                Para Weber, a validade da sociologia – enquanto ciência – está unicamente nos problemas específicos que ela se propõe a resolver. O acontecimento social refere-se aos valores, ou seja, à própria ação humana. Partindo do princípio que, na realidade empírica, a ação está sempre relacionada a algum tipo de juízo de valor, é de suma importância emancipar o pesquisador de seus valores para que as ciências sociais se fundamentem, num esforço de construir uma metodologia adequada a cada especificidade social.
                Entretanto, libertar-se dos próprios valores impõe um esforço hercúleo. Para Weber, nenhum sociólogo tem condições de uma isenção plena em função das suas relações sociais e de suas valorações. Ele pode realizar abordagens, levantar problemas e descobrir novos aspectos de seus objetos de estudo. Apesar disso, Weber ressalta a importância da neutralidade científica como meta a ser buscada, embora raramente alcançada.
                De fato, não se pode analisar a metodologia de Durkheim sem considerar o seu enraizamento positivista, bem como não se pode debater a “sociologia compreensiva” de Weber sem levar em conta o neokantismo que constitui um de seus suportes. Em se tratando que toca à teoria social de Marx, os problemas metodológicos vão além da natureza teórico-filosófica, por razões fundamentalmente políticas e ideológicas – na medida em que a teoria social de Marx vincula-se a um projeto revolucionário, a análise e a crítica da sua concepção teórico-metodológica estiveram sempre condicionadas às reações que tal projeto despertou e continua despertando.
                A questão metodológica, contudo, não se encerrou com Weber, ao contrário, manteve-se em voga, como é possível perceber pelos problemas tratados por Giddens, para quem “A ciência depende não da acumulação indutiva de demonstrações, mas do princípio metodológico da dúvida” (2002:26) ou ainda por Morin, como o chamado «Paradigma da Simplificação», ao qual ele opõe uma nova forma de pensar, capaz de apreender a complexidade do real: O paradigma da complexidade.
                De fato, com o aprofundamento da chamada crise da pós-modernidade, poder-se-ia dizer que a tão alardeada crise das ciências sociais não passava de uma crise de paradigmas, devido à dificuldade de alguns interpretes em lidar com as mudanças sociais, com novos problemas, que exigiam novos olhares e diferentes abordagens.
                No que tange a reinterpretação da sociedade através de novos olhares, deve-se ressaltar uma contribuição em peculiar da obra de Pierre Bourdieu, na construção de uma sociologia reflexiva, sobretudo em sua obra “O ofício de sociólogo”, na qual ele trabalha especificamente com a questão metodológica.  De acordo com o autor, para ser um sociólogo é preciso romper com os discursos pedagógicos, pois o saber sociológico é muito mais que uma soma de técnicas, métodos e conceitos separados ou separáveis na pesquisa.
                Ser um sociólogo é sobretudo, cultivar o olhar sociológico. É assimilar esse habitus em tal nível que os princípios científicos estejam simplesmente interiorizados. É manter-se vigilante sobre o trabalho científico e seus recursos, para ao ser confrontado com o erro, encontrar um conhecimento mais verdadeiro, ao invés de fechar-se nas verdades de suas hipóteses. É, embebendo-se nos clássicos, livrar-se das pré-noções (Durkheim); evitar a tentação de doutrinar (Weber) e, cima de tudo, é compreender que o fato social não é meramente construído. Ele é antes de tudo conquistado, para só depois ser construído e constatado; ou seja; o mais importante na questão do método é que o pesquisador saiba pensar de forma adequada, mesmo diante de resultados negativos, dos interditos e dos silêncios, pois mesmos os não-ditos têm muito a dizer. 
 
Fonte: http://sociodialy.blogspot.com.br/2012/11/questoes-de-metodo.html

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Os desafios da sociologia

Os desafios da Sociologia

Arnaldo Lemos Filho

            A sociologia tem, desde suas origens, contribuído para a ampliação do conhecimento dos homens sobre sua própria condição de vida e, fundamentalmente, para a análise das sociedades. Ela não se reduz à contestação e à denúncia e, por ser um conhecimento metódico, pode trazer benefícios à sociedade, na medida em que compõe um saber especializado, com suas teorias e pesquisas. É verdade que, muitas vezes, ela tem sido usada para produzir conhecimentos de interesse das classes dominantes, tornando-se um instrumento de controle, o que tem acarretado a burocratização e a domesticação de suas pesquisas. Outras vezes, porém, mantém uma postura crítica diante da ideologia dominante, trazendo como conseqüência mal-entendidos e perseguições.
            Uma das características da sociologia, segundo Ianni, é a sua capacidade de sempre questionar, discutindo o seu objeto e método (Ianni, 1997). Isso se explica pelo fato de que a realidade social é viva, complexa, intrincada e contraditória. Nesse início do século 21 o processo não tem sido diferente do final do século 20, nem mesmo do século 19: o seu objeto está sempre revelando transformações em todas as direções.
            As transformações sociais que vinham se elaborando ao longo do século 20 tornaram-se, agora, cada vez mais explícitas. De um lado, parece haver a continuidade da vida e de trabalho, modo de ser, pensar e agir. De outro, rupturas, descontinuidade, imprevistos simbolizados nos contrapontos: modernidade e pós-modernidade, realidade e virtualidade, globalização e diversidade.
            Ora, se olharmos as origens da sociologia, veremos que ela sempre foi assim, sendo denominada inclusive “a ciência da crise”. Não sendo obra de um único pensador, mas o resultado de circunstâncias históricas e contribuições intelectuais, ela surge, no contexto do conhecimento científico, com um corpo de idéias que se preocupou, e ainda se preocupa, como processo de constituição e desenvolvimento do sistema capitalista. Sua origem mescla-se com os processos sociais e econômicos que há muito vinham se constituindo na Europa, no campo da ciência e da tecnologia, da organização política, dos meios e processos de trabalho, das formas de propriedade da terra e dos instrumentos de produção, da distribuição do poder e da riqueza entre as classes, das tendências à secularização e racionalização que se mostravam em todas as áreas das atividades humanas.
            As transformações ocorridas, principalmente no século 18, na estrutura econômica com a Revolução Industrial e na estrutura política com a Revolução Francesa, trouxeram crises e desordens na organização da sociedade, o que levou alguns pensadores a concentrar suas reflexões sobre as suas conseqüências. Preocupado em encontrar remédios para as crises sociais, os positivistas como Saint-Simon (1760-1825) no início do século 19, e chegaram à conclusão de que os fenômenos sociais, como os físicos, estavam sujeitos a leis rigorosas. Principalmente para Comte, a desordem e a anarquia imperavam em razão da dominação de princípios (teológicos e metafísicos) que não podiam mais se adequar à sociedade industrial em expansão. Era, portanto, necessário superar esse estado de coisas, usando a razão como fundamento de uma reforma intelectual plena do homem. Cria então a “física social” que depois denominou sociologia.
            É dentro desse contexto histórico que devemos compreender as contribuições dos clássicos do pensamento sociológico: Marx, Durkheim e Weber.
            As mudanças ocorridas como conseqüência da Revolução Industrial fizeram emergir também a organização dos trabalhadores em associações e sindicatos bem como o socialismo que visava a uma alternativa para o capitalismo. Essas mudanças tiveram como resultado o desenvolvimento de um pensamento explicativo da realidade para se definirem as possibilidades de intervenção. Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) procuram estudar a sociedade capitalista a partir de seus princípios constitutivos e seu desenvolvimento. Sua preocupação fundamental é analisar, o mais profundamente possível, as contradições da sociedade capitalista com o objetivo de colocar à disposição dos trabalhadores uma arma eficaz para as suas lutas contra o capital. Com base neles, muitos pensadores desenvolveram trabalhos em vários campos do conhecimento, tais como Lenin (1870-1924), Trotsky (1879-1940), Rosa de Luxemburgo (1871-1919) e Gramsci (1891-1937).
            Mais tarde, na esteira do positivismo de Comte, surge Èmile Durkheim (1858-1917), que procurou insistentemente definir o caráter científico da sociologia. Sua preocupação com a ordem social leva-o a afirmar que o elemento fundamental da sociedade é a integração social que aparece, em sua obra, por meio do conceito de solidariedade que permite a articulação funcional de todos os elementos da realidade social. Sua obra influenciou outros pensadores relacionados com a sociologia e a História. Assim, Marcel Mauss (1872-1950), Maurice Halbwachs (1877-1945), Marc Bloch (1866-1944), Talcott Parsons (1902-1979), Roberty Merton (1910-?), trilharão os caminhos sugeridos por Durkheim.
            No mesmo período de Durkheim, Max Weber (1864-1920), na Alemanha, em outro contexto cultural e histórico, buscava sua explicação para a sociedade. A unificação alemã e o processo de industrialização tardio vão afetar, de modo significativo, o seu pensamento. Suas idéias percorrem os caminhos variados da história econômica, passando por questões religiosas, pelos processos burocráticos e pela discussão metodológica das ciências sociais. Seu ponto de partida é a compreensão da ação dos indivíduos, atuando e vivenciando situações sociais com determinadas motivações e intenções.
            Em síntese, podemos dizer que essas três vertentes, a marxista ou histórico-cultural, a durkheimiana ou funcionalista e a weberiana ou compreensiva, vão inspirar outros pensadores que, refletindo sobre a realidade em que vivem, mesclando ou não contribuições de diferentes linhas teóricas, demonstraram a possibilidade de responder aos desafios do mundo contemporâneo. Como afirma Quintanero, foi a partir da obra realizada pelos clássicos que a sociologia moderna se configurou como um campo de conhecimento com métodos e objetos próprios. Com o tempo, nenhum tema escaparia ao seu conhecimento: o Estado, as religiões, os povos “não-civilizados”, a família, a sexualidade, o mercado, a moral, a divisão do trabalho, os modos de agir, a estrutura da sociedade, e seus modos de transformação, a justiça, a bruxaria, a violência (Quintanero).
            Ora, neste início do século 21, os desafios continuam, permanecendo a sociologia a “ciência das crises”. Para Ianni, quando a globalização se constitui como novo emblema da sociologia, as teorias sociológicas que ainda predominam, em suas implicações metodológicas e epistemológicas, são ainda o marxismo, o funcionalismo e a teoria weberiana (Ianni, 1997). É evidente que em algumas interpretações da globalização e de problemas do mundo moderno aparecem a fenomenologia e outros pontos de vista, como evolucionismo, as teorias da ação social, da ação comunicativa, do interacionismo simbólico. Mas o marxismo, o funcionalismo e a teoria weberiana “são as três poderosas matrizes do pensamento científico que nunca deixaram de contemplar o indivíduo, a ação social, o cotidiano e outras manifestações das diversidades da vida social”. (Ianni, 1997). Durkheim está presente no estruturalismo e na teoria sistêmica, pois autores modernos redescobrem o princípio da causação funcional com o qual nasceram e se desenvolveram o funcionalismo e os neofuncionalismos. Marx serve de inspiração a muitos autores dedicados a interpretar as configurações e os movimentos da sociedade global, interpretações inspiradas, em última instância, no princípio da contradição. E na medida em que se multiplicam os estudos sobre a mundialização e a racionalização do mundo, a ocidentalização de outras sociedades, tribos, nações e nacionalidade, Weber torna-se presente. Ou seja, essas teorias, ainda hoje, no início do século 21, “fertilizam a maior parte de tudo o que se produz e se discute sobre as configurações e movimentos da sociedade global” (Ianni, 1997). Temas como identidade nacional, teorias do desenvolvimento e globalização, trabalho, qualidade de vida e ambiente, transformação da sociedade industrial e da pós-industrial, as novas representações de temporalidade e espaço social, relações entre saber e poder, poder e corpo, indivíduo e subjetividade, pluralidade de sujeitos, de lutas sociais e de situações de dominação devem ser tratados a partir de um olhar que busque, ao mesmo tempo, resgatar o pensamento dos clássicos, por meio de autores contemporâneos (PUC, 2001). Domingues lembra que teorias que enfatizam o plano micro da vida social, o interacionismo simbólico e a fenomenologia, abordagens que sublinham o caráter organizado da vida social, tais como as interpretações funcionalistas de Merton, Parsons e Luhmann, o estruturalismo de Bourdieu e a teoria de estruturação de Giddens, a Escola de Frankfurt, representada por Adorno, Horkheimer e Marcuse, com sua mescla de marxismo, freudismo e weberianismo, devem ser levadas em conta quando se fala em teorias sociológicas do século 20 (Dominguez, 2001).
            Creio que Dowbor sintetizou bem os principais eixos da sociedade global, eixos que têm em cada um deles, embutida, uma contradição: a tecnologia, a globalização, a polarização econômica, a urbanização e a transformação do trabalho. Enquanto as tecnologias avançam rapidamente, as instituições correspondentes avançam lentamente e esta mistura é explosiva. A economia globaliza-se, mas os sistemas de governo permanecem no âmbito nacional, gerando uma perda geral de governabilidade. A distância entre pobres e ricos aumenta dramaticamente, enquanto o planeta encolhe, a urbanização junta os pólos extremos da sociedade, levando a convívios contraditórios cada vez menos sustentáveis, deslocando o espaço da gestão do nosso cotidiano para a esfera local, enquanto os sistemas de governo continuam na lógica centralizada da primeira metade do século 20 e o mesmo sistema que promove a modernidade técnica gera a exclusão social, transformando o mundo numa imensa maioria de espectadores passivos que deveriam estar se maravilhando com as novas tecnologias surgidas (Dowbor, 1997). São esses os grandes desafios da Sociologia no início do século 21.

Referências Bibliográficas

Dominguez, José Maurício. Teorias sociológicas no século 20. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001, p. 8.
Dowbor, Ladislau. Globalização e tendências institucionais. In Ianni, Octavio (org.), Desafios da Globalização. Petrópolis, Vozes, 1997, p.15.
Ianni, Octavio. A sociologia numa era de globalismo. In Ferreira, Leila da Costa (org.), A sociologia no horizonte do século 21. São Paulo, Bom Tempo, 1997, p.13.
Ianni, Octavio, obra citada, p.23.
Ianni, Octavio, obra citada, p. 24.
Ianni, Octavio, obra citada, p. 24.
Puccamp, ICH – Projeto Pedagógico do Curso de Ciências Sociais – 2001.
Quintanero, Tânia. Um toque de clássicos. Belo Horizonte, UFMG, p.16.

Fonte: http://sociologial.dominiotemporario.com/os_desafios_da__27.html